| Limão,
açúcar, cachaça e muito gelo. Bastam esses
quatro ingredientes para se preparar a famosa caipirinha, um dos
drinques mais populares do Brasil. Presente em mais de 30 países,
a cachaça, bebida típica brasileira, virou moda
na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina graças
à caipirinha, eleita pela revista americana In Stile “a
bebida mais quente do século”. A moda pegou de tal
maneira que, segundo anuários de comércio exterior,
a cachaça figura como a terceira bebida destilada mais
consumida no mundo.
Considerada exótica e de sabor muito especial,
a caipirinha agrada em cheio aos europeus. Na Alemanha, por exemplo,
o drinque ocupa o primeiro lugar entre os coquetéis feitos
com destilados. Motivo que torna o país o principal comprador
da bebida brasileira, responsável por 29% das nossas exportações.
Na França, além da caipirinha de limão, a
grande estrela é a batida feita com cachaça e maracujá
- “la fruit de la passion”.
Obtida a partir do caldo-de-cana fermentado, a cachaça
ganha cada vez mais adeptos no exterior, onde são consumidos
7 milhões de litros - volume que está crescendo.
O Brasil está preparado para atender ao mercado externo.
Afinal, anualmente saem de seus alambiques 1,3 bilhão de
litros de aguardente, dos quais 30% produzidos por processo artesanal.
Garapa Doida
Silvio Romero, sergipano que foi Juiz de Direito em Paraty,
RJ, terra da cachaça e do camarão, informa que
a palavra garapa significa bebida e sua origem é africana.
Já Teodoro Sampaio, tupinólogo negro, afirma
que o termo é indígena, “corruptela de
guarapa, gerundio-supino de guarab, bebida adoçada
com mel ou açúcar para refresco: designa hoje
mais especialmente o caldo de cana”.
O grande mestre Câmara Cascudo ensina que garapa é
“a espuma fria decorrente da primeira fervura do caldo
de cana-de-açúcar, a mesma que Piso e Jorge
Maregrave conheceram como cachaça entre 1638 e 1644,
em Pernambuco”. Ele observa que era, realmente, “mais
garapa e quase nenhum teor alcoólico. A primeira escuma
do caldo, que Antonil chamou de cachaça, era também
garapa”. O Padre Simão de Vasconcelos cita entre
os vinhos usados pelos índios do Brasil um “mel
silvestre, ou de açúcar, o que chamou garapa”.
Durante o domínio holandês, no distrito da cidade
de Olinda, no Recife, Pernambuco (1630 - 1654), existiu o
imposto da garapa, cobrado de todos os que produziam e comercializavam
tal produto. H. Capelo e R. Ivens, viajantes da África
em 1881, na obra intitulada “De Benguela às Terras
de Iaca”, registraram garapa como sinônimo de
bombo e chibombo, uma espécie de cerveja africana,
cerveja do mato, produto da infusão e da fermentação
do milho. No Rio, até o fim do século passado,
garapa denominava uma bebida fortemente alcoólica,
feita de caldo de cana, mel de abelha e raspas de mandioca.
No dicionário editado por Pereira da Costa: “garapa
– é uma bebida picante, fermentada, em outros
tempos muito apreciada pelos africanos, apesar de provocar
uma embriaguez imediata e forte.” O dicionário
de Frei Domingos Vieira, editado em Lisboa, em 1873, explica
garapa como termo do Brasil.
E ainda Câmara Cascudo identifica “garapa picada”
como “o caldo da cana deixado para o dia seguinte”,
que ele descobriu como bebida proibida no Recife em 1840.
Para nós, garapa é apenas o caldo de cana-de-açúcar,
extraído nas moendas.
A verdade é que o índio brasileiro tinha os
seus vinhos, produtos de fermentações de frutas
e raízes: o aluá e o cauí ou cauim. O
português trouxe a cana-de-açúcar, o alambique,
o processo de destilação e produziu uma bebida
que chamou de jiribita, cachaça, cana, paraty, caninha,
sapupara.
Mas o silvícola brasileiro continuou fermentando, fabricando
suas bebidas alcoólicas. No Acre, o caboclo e o seringueiro,
bebiam a garapa doida, que era o vinho fermentado do índio.
Veio a cachaça e o homem do Acre continuou a chamar
de garapa doida, de garapa azeda, o que não era mais
só fermentado, mas também destilado. |
Caipirinha não é
Batida
Na metade do século passado, nas propriedades rurais do
interior paulista, peão que chegasse da lida molhado de
chuva, fosse qual fosse o seu trabalho, não dormia sem
tomar remédio para gripe.
E qual era a receita desse remédio? Anote aí: uma
dose generosa de pinga (da boa), um limão galego cortado
em tiras finas, uma colher de sopa de mel, três folhas de
hortelã fresca e dois dentes de alho descascados.
O limão galego cortado em tirinhas era esmagado num copo
junto com o mel, as folhas de hortelã e os dentes de alho.
Depois juntava-se a pinga e estava pronto o remédio. Era
tiro e queda: gripe passava longe de quem se tratava com essa
beberragem.
O efeito colateral também era tiro e queda: neguinho tomava
uma “lapada” (copo cheio) do tal “remédio”
e dormia a noite inteira feito um anjinho. Tinha gente que gostava
mais desse lado do efeito e rezava pra chover todo dia.
Com o passar do tempo os dois últimos ingredientes foram
simplesmente eliminados da receita, e o mel foi substituído
por uma colher de sopa de açúcar. Acrescentaram
duas pedras de gelo e o que era remédio transformou-se
num drinque muito apreciado.
Há segredos para se preparar uma caipirinha realmente boa.
Por exemplo, substituir o açúcar por adoçante
artificial sempre vai deixar um gostinho estranho. Caipirinha
e dieta não combinam. Use açúcar branco refinado,
mais solúvel que o cristal.
Fazer uma jarra de caipirinha pode ser muito prático. Mas,
se ela não for consumida com rapidez (toda a jarra!), o
sabor da bebida vai ficar prejudicado. Culpa do suco de limão
que fica amargo quando exposto durante muito tempo ao oxigênio
do ar.
Use copos baixos e largos, do tipo usado para uísque. A
bebida tem de ser preparada e servida no mesmo recipiente e essa
é a medida ideal para que não fique amarga.
E, por último, nunca esqueça: caipirinha não
é batida. As batidas também levam cachaça
e frutas (pode até ser limão), mas são preparadas
no liquidificador ou na coqueteleira. Caipirinha é amassada
no copo. E fim de papo!
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